A Pátria

Eu sou extremamente patriota.
Do tipo que chora toda vez que ouve o Hino Nacional, e que sofre muito ao ver o descaso e desprezo dos nossos ‘líderes’ políticos em relação à pátria.
E para agravar minha situação, minha filosofia de vida explica o que minha consciência sempre me disse: isto não é real, por que é impermanente. Então, minha pátria, tão amada, não existe.

Mas tive a sorte de deparar-me com um texto/crônica, publicado em 1916, de ninguém menos que Rui Barbosa, intitulado “A Pátria”.
Por completo, as cortinas que encobriam a visão da verdade foram removidas de minha mente, e pude concluir conscientemente que não estou errada em ser patriota, pois ainda que transitória, essa manifestação é a ferramenta para minha evolução permanente.

A Pátria – Rui Barbosa

” No vocabulário dos sofismas da maldade, os mais famosos nomes padecem de deturpações de sentido atrozes. Mas dessas fraudes blasfemas nenhum sofreu ainda maiores torturas do que o de “patriotismo”. Não vos iludais com essas falsificações abominandas. O sentimento que divide, inimiza, retalia, detrai, amaldiçoa, persegue, não será jamais o da pátria. A pátria é a família amplificada. E a família, divinamente constituída, tem por elementos orgânicos a honra, a disciplina, a fidelidade, a bem-querença, o sacrifício.
É uma harmonia instintiva de vontades, uma desestudada permuta de abnegações, um tecido vivente de almas entrelaçadas. Multiplicai a célula, e tendes o organismo. Multiplicai a família, e tereis a pátria. Sempre o mesmo plasma, a mesma substância nervosa, a mesma circulação sanguínea. Os homens não inventaram, antes adulteraram a fraternidade, de que o Cristo lhes dera a fórmula sublime, ensinando-os a se amarem uns aos outros.
“Diliges proximum tuum sicut te ipsum”. Dilatai a fraternidade cristã, e chegareis das afeições individuais às solidariedades coletivas, da família à nação, da nação à humanidade. Objetar-me-eis com a guerra? Eu vos respondo com o arbitramento. O porvir é assaz vasto, para comportar esta grande esperança. Ainda entre as nações independentes, soberanas, o dever dos deveres está em respeitar nas outras o direito da nossa. Aplicai-o agora dentro nas raias desta: é o mesmo resultado: bem-queiramos uns aos outros, como nos queremos a nós mesmos.
Se o casal do nosso vizinho cresce, enrica e pompeia, não nos amofine a ventura, de que não compartimos. Bem-digamos, antes, na rapidez de sua medrança, no lustre de sua opulência, o avultar da riqueza nacional, que se não pode compôr da miséria de todos. Por mais que os sucessos nos elevem, nos comícios, no foro, no parlamento, na administração, aprendamos a considerar no poder um instrumento de defesa comum, a agradecer nas oposições as válvulas essenciais de segurança da ordem, a sentir no conflito dos antagonismos descobertos a melhor garantia de nossa moralidade. Não chamemos jamais de “inimigos da pátria” aos nossos contendores.  Não averbemos jamais de “traidores à pátria” os nossos adversários mais irredutíveis.

A Pátria não é ninguém: são todos; e cada qual tem no seio dela o mesmo direito à ideia, à palavra, à associação. A pátria não é um sistema, nem uma seita, nem um monopólio, nem uma forma de governo: é o céu, o solo, o povo, a tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos e o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade. Os que a servem são os que não invejam, os que não infamam, os que não conspiram, os que não sublevam, os que não desalentam, os que não emudecem, os que não se acovardam, mas resistem, mas ensinam, mas esforçam, mas pacificam, mas discutem, mas praticam a justiça, a admiração e o entusiasmo. Porque todos os sentimentos grandes são benignos, e residem originalmente no amor. No próprio patriotismo armado o mais difícil da vocação, e a sua dignidade, não está no matar, mas no morrer. A guerra, legitimamente, não pode ser o extermínio, nem a ambição: é simplesmente a defesa. Além desses limites, seria um flagelo bárbaro, que o patriotismo repudia.”  Rui Barbosa – 01/01/1916

Não farei muitos comentários, que seriam incabíveis à esta obra prima.
Mas farei um pedido: leia o texto disposto à permitir que sejam removidas  as cortinas que te impedem de ver a verdade sob vários ângulos. Releia. E leia mais uma vez. Talvez, seja necessário um dicionário. Perceba que podemos sim entender A Pátria, para muito além de nossos próprios ideais e preconceitos.
Por fim, sinta-se ‘entrelaçado à esse tecido vivente de almas’, e lembre-se, as células multiplicadas é que constituem um organismo.

E viva o Brasil!

 

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