Qualidade de vida x Vida com Qualidade

Esse é o tema do século.
Todos buscam com certo frenesi mais qualidade de vida.
Isso parece até bem bacana né?
Na vida moderna, praticamente tudo que o homem faz é ‘justificado’ por sua busca pela qualidade de vida.

O homem trabalha muito mais hoje do que há 50 anos atrás, para poder comprar tudo aquilo que a tecnologia criou para trazer qualidade de vida.
Há 50 anos, haviam 2 ou 3 modelos de televisores, com imagens em preto e branco (acredite, a televisão começou sem cores), e só acessível à classe média alta, ao menos no Brasil, neste período.
Como só os ricos podiam comprar, restava ao povo em geral, trabalhar um pouco mais na tentativa de reunir recursos e adquirir a grande novidade que prometia trazer mais qualidade de vida.

Tempos depois, a variedade destes aparelhos foi-se ampliando: preto e branco ou colorida; com controle remoto ou sem controle; 14, 20, 32 ou 40 polegadas; HD ou não; Full HD; Smart TV e por fim 4K TV. Por enquanto.
Só para assegurar a melhorara da  qualidade de vida com este produto, precisamos comprar uma TV nova a cada 2 anos, no mínimo. E para comprar de forma honesta, precisamos trabalhar.
E esta mesma regra simples e explícita aplica-se à toda infinidade de recursos tecnológicos disponíveis atualmente sob o pretexto de garantir “melhor qualidade de vida”.

Por escolha própria, nos acomodamos neste círculo consumista vicioso, onde trabalhamos muito mais, para ter muito mais, iludidos pela falsa percepção de que tudo isso que podemos ter venha a fazer algum sentido naquilo que podemos ser.

Vendemos nossa autonomia.
Não conseguimos fazer mais nada sem algum destes aparelhos.
Não fazemos mais contas, não caminhamos, não apreciamos paisagens pelas janelas dos carros.
Não escrevemos e já não estamos mais lendo (vídeos curtos são muito melhores), e o mais devastador de todos os efeitos dessa perda de autonomia: não estamos mais conversando.

Há um bom tempo, vivemos  uma ‘vida sem qualidade’, para adquirir produtos e serviços que possam trazer mais ‘qualidade de vida’.
Adotamos um modo de vida adoecedor, para comprar produtos e serviços que nos curem.
Sim, é insano mesmo.

E por favor, não se finja de tolo, distorcendo minhas palavras.
Não estou condenando a ciência e a tecnologia pelo adoecimento humano. A insanidade está na mente que manipula a máquina.
Estou condenando sim o modo de vida que escolhemos, como estultos, trocando o seis que já nos pertence por muito menos que meia dúzia.

Não é qualidade de vida que devemos buscar.
Precisamos é viver com qualidade. Precisamos é de Vida com qualidade.
Trabalhar sim para merecer as conquistas, mas vivendo cada momento presente. Olhando nos olhos de todas as pessoas que cruzarem seu caminho.

Enquanto dirige seu carro automático, com acentos e volantes reguláveis, painel de comandos arrojado e piloto automático, abra as janelas e deixe o vento entrar. Ouça os sons externos do mundo que existe à sua volta. Sinta os aromas disponíveis em seu trajeto. Encante-se com a beleza das paisagens à sua volta.
Ainda que o vento esteja quente, os sons sejam ruídos, os aromas sejam industriais e a paisagem seja urbana, é aí neste cenário que sua vida acontece de verdade. É neste cenário que você está, e é nele que você precisa ver beleza, magia e felicidade.

Entenda que viver com qualidade não depende dos recursos disponíveis à sua volta.
Entenda que você não precisa de dinheiro, de carro, de casa, de i.phone, internet e redes sociais para viver com qualidade, mas você precisa decidir que viverá assim: com qualidade.
Todos esses recursos tecnológicos servem apenas para desfrutar prazeres do mundo, e não são uma premissa para viver com qualidade.
Afinal, nem sempre a tecnologia esteve à nosso alcance, e ainda assim, chegamos vivos aos dias atuais.

Viva seu personagem e não o cenário.

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