O que eu quero, e o que eu não quero.

Eu não sou uma pessoa convencional. Eu sei. Todos sabem.
Nunca quis trabalhar em uma empresa (mas já fiz isso, toda vez que foi necessário) com horário pra entrar e sair, com metas à cumprir. E sempre soube o que eu queria fazer da vida, e onde eu queria chegar.
Demorei mais do que o convencional para exercer minha profissão por que escolhi exercer a maternidade quando ela veio.

Ao longo da minha vida, exerci todas as funções que me pareciam primordiais. Minha essência acredita que existem coisas que eu tenho que fazer, por que fazem parte da jornada da vida. Assim fui fazendo tudo que eu julgava fundamental, na medida em que essas “coisas” ou situações iam surgindo. Não sei se isso é certo ou errado. E nunca me fiz essa pergunta. Pra mim, sempre, o mérito está no meu sentimento em relação aquilo que exerço.

Hoje, aos cinquenta anos, estou alcançando um auge da minha realização profissional. Estou fazendo coisas que sonhei fazer a vida inteira, e coisas que nunca imaginei fazer. Demorei mais que o convencional para chegar neste auge. E, apesar de considerar-me madura e crescidinha, me perdi na loucura dessa nova fase da vida. Eu me perguntava à todo instante, por que estou me sentindo assim, ansiosa, vazia, desconectada, se estou no auge da minha produtividade profissional? Sonhava com esse momento, e agora me sinto semiplena, parcial? O que está errado?

Não fui madura o suficiente para prever o acontecimento, mas a maturidade escancarou a verdade. Eu caminhava, à passos largos, em direção à minha realização profissional, e como qualquer pessoa, que vê seu objetivo cada vez mais perto, fui tomada pela obcecação inelutável.

Eu corria, decidida em direção ao que sempre quis. Mas eu nunca quis uma coisa só. Só a realização profissional não preenche meu ser como gosto de me sentir. Preciso de mais. Para minha sorte, não demorei muito pra perceber isso.

Eu sei o que eu quero, mas sei também o que eu não quero.
Não quero não ter tempo para preparar meu próprio almoço.
Não quero não ter tempo pros meus filhos, que agora têm bem menos tempo pra mim.
Não quero não ter tempo para passear com meus cachorros.
Não quero não ter tempo de acompanhar minha mãe e meu pai quando precisam de mim.
Não quero não ter tempo de curtir minha casa (que é a casa dos meus sonhos) e mantê-la do jeitinho que eu gosto, o que só eu sei fazer.
Não quero não ter tempo de regar os canteiros da minha horta (sim, temos uma linda horta em casa).
Não quero não ter meu tempo sagrado de yoga e meditação, diário.
Não quero não ter tempo pra ler, escrever, assistir meus seriados, e principalmente, não quero não ter tempo para o “nadismo”.

Não quero não ter tempo pra ser quem sou de verdade, e fazer todas as coisas que eu amo fazer, e que eu descobri que preciso fazer para ser feliz e realizada.

Hoje, aos cinquenta anos, me dei conta que sempre, ao longo de toda a minha vida, deixei a vida fluir. Cada coisa a ser realizada tem seu tempo, e toda vez que eu me empenho em mudar o ‘tempo’ em que tudo acontece, sinto-me ansiosa, vazia, desconectada, semiplena e parcial.

Por que a questão principal não é saber o que eu quero e onde quero chegar. A questão principal é o que eu posso perder se meus esforços convergem para a tentativa de fazer tudo acontecer no tempo que eu quero?

Tudo que você sonha e imagina, você pode realizar, porém, quando a vida estiver pronta para esta realização.
Ou você nasceu falando vários idiomas?
Não estou aqui sugerindo que você aborte a missão “trabalho é exclusividade”.
Mas, seria muito bom que você soubesse, ao certo, o que quer e o que não quer.
Seria muito bom pra você perceber se está ansioso, vazio, semipleno e parcial.

Se nada disso estiver presente na sua vida, segue em frente, toca o barco, manda ver, e só pare, se um desses sintomas aparecer.

A realização plena é peculiar, e ninguém pode apenas, fazer como alguém já fez.
Exemplos impulsionam, mas só servem de exemplo.

Bem, vou parando por aqui, pra ir colher algo na minha horta e começar a preparar meu almoço!
E não vejo a hora de voltar aqui!

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