Eu fui à Índia

Eu finalmente realizei um grande sonho e fui à Índia.
Mas não posso dizer que estive na Índia. Estas palavras não trariam um retrato fiel do que me aconteceu nesta viagem surpreendente.
É bem verdade que não existem palavras para descrever o indescritível, e nem para narrar o inenarrável, mas, podemos insistir e buscar maneiras de aproximar da realidade, a descrição de uma vivência.

“A Índia esteve em mim”. Essa foi a maneira que encontrei de aproximar minha descrição da realidade que vivi.

Visitar a Índia é um sonho de muito gente comum, mas é, sem dúvidas, um sonho comum de gente que pratica e vive o yoga. E comigo não seria diferente.
Desde sempre, minha alma expressou grande afinidade e interesse por esta cultura tão exótica, excitante e encantadora.
Notório seria, que essa afinidade direcionasse meus passos profissionais para o yoga.

E eu sempre soube que um dia iria à Índia, e que isso seria inesquecível.
Bem, eu não sou uma mulher simples. Não sou rasa. Nem tão pouco sou tênue.
Minha experiência na tão sonhada Índia não seria trivial. Para mim é imprescindível que a vida se manifeste com profunda intensidade, e para isso, fiz parceria com uma irmã de coração e decidimos levar um grupo de viajantes para essa incrível experiência.

Por si só esta ideia seria suficiente para trazer a adrenalina que minha alma desejava, mas, em se tratando de Índia, nada pode ser exatamente esperado. É sério. Você pode planejar cada passo da sua viagem, cada lugar que visitará, cada templo, cada horário, mas nunca pode esperar nada.

Eis aqui o primeiro grande ensinamento da Índia: desprenda-se de expectativas pré estabelecidas. Se você não abrir seu coração e sua alma para a aceitação da nova e impremeditável realidade que se apresenta, alguns momentos desta experiência podem tornar-se difíceis.

Minha corrente sanguínea parecia tomada da adrenalina descarregada em cada situação nova vivida por nosso grupo, mas minha alma mantinha-se serena, como que ensimesmada pela experiência que se apresentava. Nada me abalava, e assim, tudo me fortalecia. Cada situação que descarregava em meu sangue uma tormenta de adrenalina me parecia mais a simples vicissitude da vida, mostrando-me uma força interna antes desconhecida.

E eis aqui o segundo grande ensinamento da Índia: toda e qualquer relação é uma grande oportunidade. Não a desperdice. Resistir à essa força de atrito que lapida a alma pode tornar sua experiencia desconfortável.

Em dois dias de viagem, eu já não sabia mais o que era tempo. Não o tempo do relógio, que marca horas e dias. Bem, eu também não sabia ao certo o dia em que estávamos, e nem a hora, mas isso é insignificante. Neste ponto da viagem, eu não tinha mais conexão com o antes e nem com o depois. Isso foi o máximo. A cada instante em que uma descarga de adrenalina corria em minhas veias, eu não me lembrava mais dos motivos da descarga anterior, e também não me “pré ocupava” com as possíveis descargas vindouras. Só existia um instante: e era aquele que eu estava vivendo. A Índia é uma espécie de portal.

Eis o terceiro grande ensinamento da Índia: tudo acontece agora! Nem antes do exato momento, e nem depois. Cada inspiração cria um novo instante e um novo acontecimento, e permanecer remoendo o instante que passou ou na apreensão do instante que virá, tira sua consciência do exato instante onde a realidade acontece. E é assim, vivendo o momento presente, que criamos a realidade com a qual tanto sonhamos.

A responsabilidade por um grupo traz altos e baixos deste pico de adrenalina. A Índia também. O choque cultural, econômico e social é impactante. Os contrastes revelam em nós, a incapacidade em compreender e aceitar o diferente. Um diferente que chega a parecer insano, mas que em sua essência é apenas ‘diferente’. Aos olhos dos ocidentais, tudo é uma constante discrepância entre o belo e o feio, entre a ordem e o caos, entre riqueza e pobreza, fé e conceitos dogmáticos.

Eis aqui o quarto grande ensinamento da Índia: tudo isso é maya ( ilusão ), e é impermanente. Isto significa que todas as formas de ser, de viver e de pensar são verdades relativas, inclusive a minha maneira de ver o mundo, é relativa. O que eu considero belo, pode ser feio partindo de um outro ponto de vista, e se eu não sair do modo racional que elabora julgamentos a cerca dos contrastes desta cultura que agora estão explícitos à minha volta, sentirei apenas o amargo gosto do fel. Aromas, cores, sabores, olhares, sorrisos e palavras são desperdiçados nessas condições.

Lá pelo décimo oitavo dia, sentia em mim uma inquietação, já que este parecia ainda ser meu primeiro dia na Índia.
Andei pelas mais caóticas ruas da Índia. Fiz o Suryanamaskar dentro de um barco, ao nascer do Sol, na beira do Ganges. Fiz yoga, meditei, fiz compras, como muita “Samosa”, aprendi a falar ‘chalo’ (vamos), e já despertava em mim a impaciência com as buzinas, aliás, o trânsito da Índia merece um texto exclusivo. Visitei templos muçulmanos, hinduistas, budistas e assisti à uma missa católica (linda por sinal).
Porém, a esta altura da viagem, o que mais me chamava a atenção era a avalanche de situações que se apresentam em um único dia, com o evidente propósito de desconstruir a ilusão à qual nos prendemos, acreditando ser ela a realidade, e nos convidar a transformar o modo de ser e de viver a vida.

A Índia é um constante convite. E nesse lindo convite, esse povo e seus costumes te acolhem e te expulsam, ao mesmo tempo. Você é quem escolhe sentir-se acolhido ou expulso.
Já ouvi e li muitas pessoas dizendo :”Índia, ame-a ou odeie-a”.
Mas o que a Índia quer dizer de verdade é: “Reinvente-se ou desperdice-se”.

Eis aqui o quinto grande ensinamento da Índia: a qualidade da experiência que você vai viver na Índia depende de você, e não da Índia.

Não se desperdice.

Meus agradecimentos à querida Hermana Andrea Filomena – Amarnathi, ao novo e admirável amigo Mahesh C. Tewari e todos os seus guias envolvidos nesta jornada, e um agradecimento especial à cada um dos viajantes que se propôs essa inesquecível aventura conosco. Todos vocês foram as ferramentas que a Índia usou para o meu convite à transformação.

Namaskaram!!

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